terça-feira, 20 de maio de 2008

CRIATIVIDADE & ARTE
DA ANTIGA GRÉCIA À CONTEMPORANEIDADE


1. Aristóteles, em sua obra Arte Poética e Arte Retórica, há 2.300 anos atrás, sugere-nos alternativas para se atingir um espírito criativo a partir da arte. René Huyghe, por sua vez, agora no século XX, em seu livro Os Poderes da Imagem, traça um contraste entre os impactos da imagem midiática na consciência humana, em contraposição com a influência da imagem artística.
2. Aristóteles menciona a arte enquanto um lenitivo capaz de compensar os dissabores da alma, a qual se impõe à perene tristeza existencial da condição humana, e que oferece como recurso catártico o choque emocional, capaz de provocar expurgos das mazelas que afligem o indivíduo (de fato, esse era o papel da tragédia grega e até hoje tem sido o da mídia sensacionalista).
3. René Huyghe, por sua vez, traça um parâmetro entre o choque sensorial da imagem midiática, que embota os sentidos do indivíduo e os condiciona a um estado de anestesia sensorial, em contraposição com o efeito lenitivo da arte, que age como um verdadeiro antídoto contra o efeito nocivo que o choque da imagem midiática causa na mente humana.
4. Na arte, o indivíduo se vê identificado com os sentimentos do artista e, dessa forma, sente compensada sua solidão por estar no mundo em meio a tantos conflitos e frustrações.
5. O expectador da arte se sente confortado em suas mágoas e anseios, uma vez que, reconhecendo-se na arte, percebe que não é o único a passar por aquilo, não é o único a sofrer tais sintomas.
6. A arte proporciona ao seu expectador um expurgo – porém um expurgo a partir de critérios da beleza estética, a qual eleva o indivíduo a parâmetros que o possibilitam sair da carcaça grotesca do bombardeio sensorial em que ele está mergulhado, o qual lhe embota os sentidos e o impede de pensar uma realidade melhor, impossibilitando-o, conseqüentemente, de atingir os limites mínimos da criação.
7. A arte é essencialmente uma linguagem. E todo criativo é por si só um artista, uma vez que o artista tem por finalidade se comunicar, fazendo uso do que os outros podem conhecer ou reconhecer, através de signos que tanto podem ser ícones, quanto índices ou mesmo símbolos.
8. Como toda linguagem, tanto a arte quanto o impulso criativo tentam ultrapassar a simples prática de um repertório; em ambos haverá sempre um esforço do emissor para se revelar aos outros.
9. O artista sente o mundo de forma diferente, com mais intensidade, mais originalidade e, dessa forma, sabe que o produto de sua criação requer do espectador uma atenção mais acurada para enriquecer com o eco de sua própria vida interior a obra produzida.
10. Por mais obscura que seja a percepção do indivíduo, quando ele está diante de uma verdadeira obra de arte, ele sempre tira dela alguma espécie de entendimento.
11. Mesmo quando a arte se apodera da angústia, da fealdade e do próprio horror, é para demonstrar que isso também tem sua dose de beleza.
12. Portanto, não é só a possibilidade de equilíbrio de tudo o que constitui a nossa substância viva que se estabiliza diante da arte; trata-se de um outro equilíbrio mais vasto, que engloba tanto o ser que somos quanto tudo o que ele não é, mas pode vir a ser.
13. A arte, permitindo à sensibilidade exteriorizar-se espontaneamente sem mesmo ser elucidada (diferentemente do trabalho intelectual), transforma os conflitos ou os desesperos interiores, em um simples espetáculo.
14. O velho Aristóteles já havia previsto a eficiência dessa solução quando falava da catarsis da arte, ou seja, do seu poder de explicar tudo aquilo que agita e atormenta o espírito. O indivíduo liberta-se, então, e deixa de estar obcecado. Liberta-se na medida em que se encontra colocado face a face como que o atormentava anteriormente.
15. O espectador, por sua vez, sofre esse efeito benéfico porque na medida em que uma obra de arte o faz vibrar, na medida em que ele se reconhece nela, e até nela aprende a reconhecer-se, vê-se finalmente recompensado sua solidão. Agora, ele compartilha com alguém suas emoções, por vezes pouco claras, que se oferecem a ele como um sinal de outrem. Julgando descobrir nelas o segredo do artista, ao mesmo tempo ele descobre o seu próprio segredo.
16. Assim, a revelação da obra de arte alivia uma tensão interior porque tange na solidão existencial do espectador, transformando os sinais exteriores e independentes criados pelo artista na revelação de seu próprio fluxo interior.
17. E, nessa hora, o indivíduo se torna senhor, se apodera de algo que sempre foi seu, sem que ele nunca soubesse anteriormente. Efetivamente, a arte aumenta o domínio do homem tanto sobre a natureza quanto sobre si mesmo.
18. A arte permite-lhe guardar para sempre aquela parte do mundo que lhe foi oferecida. Em todas as suas formas figurativas a arte oferece o seu toque de perpetuidade a essa fuga louca e desenfreada do tempo a que o cinema, o rádio ou a televisão nos obrigam, devido às suas constantes abreviações, aos seus saltos bruscos, que somente contribuem para acelerar o turbilhão em que vivemos e a vertigem angustiosa que nos habita.
19. A arte afirma a força do homem perante o mundo, recompõe a lei do homem em consonância com a lei do universo, restitui-lhe confiança até então tão ameaçada.
20. Assim, a arte, erguendo contra a mecanização do mundo visual uma barreira, e por outro lado contra a precipitação de seu curso, tende a compensar esses efeitos que se revelam tão destruidores do psiquismo contemporâneo, colocando-se no mesmo campo em que eles atuam.
21. Portanto, Arte e Criatividade estão intrinsecamente relacionadas, sendo impossível uma existir sem a outra. Isso já dizia Aristóteles há quase 2.400 anos atrás; isso disse René Huyghe, um dos maiores pensadores contemporâneos do fenômeno midiático e artístico, bem como tantos outros estudiosos que se debruçaram sobre a questão.
22. Por isso é que se estuda Aristóteles em Criatividade, para que se adquira subsídios a fim de que se possa confrontar suas idéias com as idéias da contemporaneidade, de sorte que se perceba nela verdades universais capazes de nos redirecionar em nossas escolhas, possibilitando-nos facilitar nossa prática profissional.


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