segunda-feira, 16 de junho de 2008

CRÔNICA: SITUAÇÃO DE GUERRA
por: Jerusa Guijen Garcia


Em uma situação de guerra, a partir do momento em que se ouve o soar do alarme, as pessoas passam a se olhar como quem fita o além, já não se enxergando mais umas às outras. É como se o verdadeiro espírito do indivíduo saísse de seu corpo naquele momento para dar lugar a uma alma de outra natureza, mais fria e calculista que a anterior.
É quando o indivíduo se dá conta da iminência da morte e nessa hora ele decide pensar nas últimas providências a serem tomadas antes que os cavaleiros do apocalipse desfiram sobre sua cabeça o golpe fatal.
Então ele tenta a todo custo localizar seus entes queridos e, quando se obtém êxito, empenha-se em fazer as últimas recomendações, desfiando todo um rosário de perdões pelas ofensas, de mea culpas, na tentativa de se passar a limpo, em instantes, o que não foi possível fazê-lo em toda uma vida.
Concluída essa etapa, há que se pôr em prática alguma forma de escape, algo que valha uma chance de fugir, caso se venha a sofrer um ataque frontal. Quando, de fato, o inimigo surge, apenas mantêm a dignidade aqueles que realmente a possuem.
Ali, na hora do salve-se quem puder, caem as máscaras do verniz social e a verdadeira personalidade do indivíduo aflora.
Se ele traz em seu âmago um dragão dormindo nos absconsos escaninhos de seu inconsciente, nessa hora o monstro emerge com fúria total, pisando sem misericórdia nos que estão embaixo, com o intuito de livrar sua pele.

Assim é o aluno em vésperas de provas: diante do iminente confronto entre o que ele de fato aprendeu e tudo o que lhe resta saber, vê-se à frente de um abismo intransponível e é quando se dá conta de seu despreparo.
Teme ser desvelado perante a família que, no mais das vezes, investe com sacrifício em seus estudos e espera dele um retorno a qualquer custo.
Então, ele engendra um plano de combate, que inicia sempre por tentar arrebanhar adeptos, numa parceria de náufragos, uma vez que precisa de suporte para ajudá-lo a atingir seu intento.
Persuade seus colegas a se fiarem em suas premissas, as quais sempre se baseiam em alguma espécie de inconformismo.
Inicia-se, assim, o ataque frontal, em que são aplicadas todas as espécies de golpes a fim de minar o suposto inimigo, no caso, o professor que representa a ameaça.
Surgem defeitos até então jamais notados, potencializa-se inócuas atitudes que não viriam à baila não fosse esse contexto.
E já que seu lema é matar o inimigo antes que ele ataque, arma-se todo um dossiê de acusações, sempre gozando do respaldo de seus iguais, dossiê esse submetido à apreciação do coordenador do curso, na esperança de conseguir que o professor caia antes de desferir a tacada certeira, isto é, antes da prova.

Depois, passada a tempestade, saem as notas, contata-se que ninguém repetiu, arrefecem-se os ânimos, afinal, o diabo não era tão feio quanto se pintava.
Então, suspiram todos aliviados e saem felizes a tomar cerveja, não deixando, inclusive, de convidar o professor que há pouco fora tão severamente criticado – para compor com eles, em uníssono, o coro dos contentes.


Professora Jerusa é sobrevivente da Guerra Civil do Timor Leste em 2006)
(...)

Um comentário:

Plínio Freitas disse...

Ótima leitura, professora.
No texto, tudo é fato.

Abraços,

Plínio V. Freitas